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Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra

O começo do livro foi bem nada com nada, me senti perdido. Qual o leitor que está acostumado com um livro, que conta diversas histórias sobre os mais variados assuntos, no formato de questões de vestibulares? Por isso o título “Múltipla Escolha”. É um chamado para sair do óbvio e forçar a mente a tirar significado de algo, primeiramente, sem sentido. Algumas páginas adiante já comecei a entrar na ideia do autor e acabei adorando o livro. Frases pequenas, com múltiplas escolhas para substituir os espaços em brancos, faz invocar logo aqueles tempos de escola. Acostumados a obedecer e ter que marcar alguma alternativa, percebermos o quanto fomos treinados e não educados, como o autor enfatiza. Aliás, é um dos assuntos que mais me marcou e proporcionou pensamentos filosóficos sobre o nosso sistema educacional, onde somos treinados a dar uma resposta correta, com medo de que não seja a correta, mesmo que outra alternativa faça mais sentido. 
Por que devemos adivinhar o que o professor/educa…

A maldição de Stalin, de Robert Gellately


O Brasil, nos últimos anos, vive um momento de acalorado debate político. E quando se trata de política, logo pensamos em ideologias. Esquerda versus direita, comunismo versus liberalismo. E este livro bem escrito e pesquisado, traça um perfil sobre não a figura em si de Stalin, mas sobre como ele governou com mão de ferro – e cortina também – a URSS e todos os países satélites da mãe-pátria. É um livro importante para todos aqueles que, antes de sair bradando suas opiniões nas redes sociais, gostam de pesquisar um pouco para poder debater certos assuntos com mais propriedade. Ninguém duvida de que o nazismo foi uma ideologia sanguinária e desumana, que ceifou milhões de vidas inocentes por uma supremacia racial que o seu líder, Adolf Hitler, queria implantar na Alemanha, de início, e depois em toda a Europa. Já quando se trata do comunismo, vemos pessoas que defendem essa ideologia apaixonadamente e romantiza um período tão triste da História da humanidade. Que ninguém tenha dúvidas de que a ideologia comunista foi a responsável por matar mais pessoas, e não alguma soma abstrata, do que o nazismo. Em “A maldição de Stalin” lemos que o líder soviético nutria certos sentimentos pela figura de Hitler, pois pensava que ele seria uma peça chave para a grande causa revolucionária, pois seria ele e seu exército que enfrentaria as forças capitalistas e imperialistas, e assim permitiria que a URSS, enfim, veria seus inimigos derrotados e logo estariam prontos para transformar o mundo em um novo mundo, comunista.

As primeiras páginas fazem uma rápida introdução sobre quem era Josef Vissarionovitch Djugashvili, “um sujeito problemático, ativista de sindicatos, marxista renegado” que logo cairia nas graças e seria o favorito de Vladimir Lenin. Seu nome de guerra era “Stalin”, que significava Homem de Aço, algo que já antecedia o modus operandi do ditador. Sua experiência em incitar greves e participar de atos terroristas, e até de execuções de inimigos, o ajudaria a lidar com os problemas que enfrentaria como chefe do Kremlim. Stalin era seguidor escrupuloso dos ensinamentos de Lenin, o que desmantela o argumento de alguns comunistas modernos de que as ações de Stalin são únicas e exclusivamente de Stalin; ou seja, Lenin era um líder que não tinha ligação com o Stalin ditador, sua “cria”. Muitos socialistas revisionistas repugnam Stalin, mas idolatra Lenin, sendo que os dois são produto de um mesmo pensamento ideológico, sendo que este último não fez o que o seu discípulo fez porque logo morreu, dando a Stalin o poder.

Depois de abordar um pouco sobre a vida pessoal do ditador, Robert Gellately relata como se deu o processo da revolução stalinista e prossegue, com uma escrita de tirar o fôlego, relatando os pormenores das ações truculentas e desonestas para impor, de cima para baixo, uma forma comunista de governar. Tribunais foram criados para julgar aqueles que eram considerados traidores, o que resultava em execuções em praças públicas; fazendas coletivas eram organizadas, não antes de expulsarem os proprietários; uma política de expropriação nos campos fora tomada, e qualquer traço capitalista era esmagado, pois os camponeses preferiam vender os cerais para os comerciantes particulares ao invés de dar para o Estado. Com essa política de expropriação, melhor dizendo, de exploração dos camponeses – a ironia aqui era a de que ele estava lutando a favor dos camponeses –, seguiu-se um evento desumano e diabólico. Milhares morreram por inanição, quando não eram executadas. Daí o leitor já tem uma dimensão do que um governo comunista seria capaz, pois já em seus primeiros passos, o terror já fora posto em prática. Alguns trechos são de cortar o coração, como este abaixo.

A fome, contudo, resultou em parte de ações do regime comunista, que ainda exercia a política da miséria humana. Na Moldávia, por exemplo, o governo provocou a fome pelas técnicas de requisição de grãos de que foram alvo os camponeses supostamente ricos, na eterna luta contra os “kulaks”. Exatamente naquela região, pelo menos 115 mil camponeses morreram naquele período “de inanição e doenças correlatas”.

Stalin se recusava a enfrentar tal problema, ou melhor, não se importava no fato de que crianças, idosos, homens e mulheres estavam morrendo de fome. O que importava, para aquele que se dizia lutar contra os imperialista que exploravam o proletariado, era os grãos que abastecia o Kremlim e outros países satélites. Teorias lindas, práticas terroristas. Era assim que Stalin agia, e todas os regimes comunistas ao redor do mundo, pois se inspiravam no modelo soviético.

A campanha de coletivização do campo, logo quando a ditadura comunista-stalinista estava sendo implantada, foi quase como uma guerra. Estima-se que as mortes decorrentes de violência, inanição ou de doenças relacionadas com a fome foram entre 4 e 8 milhões. Só as primeiras 50 páginas do livro deixa o leitor estarrecido com a brutalidade e a violência perpetrados contra o próprio povo. Mas esses números são apenas em tempos de relativa paz, pois Hitler ainda não tinha invadido a URSS e traído o amigo de causa Stalin. Ele, que em relação a Hitler era ingênuo, surpreendeu-se e quase foi derrotado, mas os capitalistas inimigos o ajudaram a defender a “mãe-pátria” e expurgar os nazistas, sob o custo de mais mortos e cidades completamente destruídas. Não é verdade o que muito se alega por aí, de que os comunistas livraram o mundo dos nazistas. Sem a ajuda do Ocidente, o grande inimigo do ditador comunista, a URSS teria sido subjugada pelos nazistas. Bem, livrou-se de um mal, mas criou-se um mal ainda pior: os comunistas, após a ajuda e o sucesso contra os nazistas, tornaram-se mais ousados e brincava com os Aliados, mentindo e fingindo afetação contra alguém que desconfiasse das intenções do ditador.

Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt trataram Stalin como um grande leviano, e o primeiro até nutria certa simpatia pelo ditador, o que logo se mostraria como uma atitude totalmente errada. Os dois líderes do Ocidente não viam, ou não queriam ver, a real ameaça que a URSS representava para as liberdades individuais e direitos dos indivíduos. Mas essa relação dos Três Grandes era mais complexa do que se imagina. Estupros, assassinatos de crianças e idosos, deportações forçadas, inanição, antissemitismo e um latente ódio ao Ocidente permeou as ações e pensamentos daqueles comunistas, e de uma forma mais extrema e violenta ainda sob o jugo do governo stalinista. A maldição de Stalin esmagou seres humanos, feriu a dignidade de cada ser como indivíduo, separou e destruiu família, encarnou o próprio mal e matou bem mais que o nazismo. Só lendo o livro para poder compreender o por que a Polônia criminalizou a apologia ao comunismo, assim como a Moldávia, Lituânia e Geórgia. E assim como Hitler acreditava na pureza da raça, Stalin tinha o mesmo pensamento. Talvez se Hitler não odiasse tanto os judeus bolcheviques, os dois teriam juntado forças e prosseguido com a causa revolucionária lado a lado.

As primeiras ondas de soldados vindos da guerra foram aplaudidas e reintegradas na sociedade, pelos menos se voltassem inteiros. Muitos deles se tornaram comunistas fanáticos, mas alguns questionaram o sistema depois da relativa prosperidade que tinham testemunhado no exterior. Houve veteranos de guerra que criticaram, e alguns – temendo uma guerra contra os Estados Unidos e a Inglaterra – ousaram dizer, “Foi um erro não destruirmos os “aliados” após a queda de Berlim”. A maior parte retornou para a pobreza do interior. O Dia da Vitória foi decretado feriado, até que Stalin entendeu que havia pouco a ganhar focando no passado e, em 1947, decidiu abolir a celebração. Desencorajou seus generais a escreverem memórias, em parte porque preferia saturar o povo com discursos públicos com ataques aos novos inimigos na Guerra Fria.
Aos estimados 2,75 milhões de inválidos da União Soviética foram concedidas irrisórias pensões e muitos tiveram que recorrer à mendicância ou ao furto de cigarros nos mercados. Por volta de 1947, Stalin deu um basta e ordenou a retirada de todos os mendigos das ruas.

Relembrar para não esquecer. Para que não nos deixemos cair no canto da seria comunista e passar por situações semelhantes. Pegando alguns discursos dos comunistas atuais e fazendo um contraste com os antigos comunistas, entendemos aquela máxima atribuída a Lenin: “Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz”.

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