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As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

Silêncio, de Shusaku Endo


Um romance sobre fé, tentação, apostasia e o silêncio de Deus. Ao saber que o padre Ferreira havia apostatado no Japão – pano de fundo desse intenso e angustiante romance –, os padres Rodrigues e Garpe decidem ir ver com os próprios olhos se tal informação procedia. Também decidiram ir para dar o pão aos famintos cristão japoneses, que não tinham mais alguém que os instruísse na fé e os ensinassem as doutrinas do cristianismo. Mesmo sabendo dos perigos que enfrentariam, pois o magistrado Inoue era conhecido além-mar por sua fúria e métodos cruéis para com aqueles que professavam e não negavam a fé em Deus. Mas, ao chegar clandestinamente ao Japão e ver em quais condições aqueles pobres coitados camponeses viviam, uma batalha interior emerge de dentro da alma dos padres – mais em Rodrigues, do que em Garpe. Pouco conhecemos o padre Garpe, pois a narrativa é do próprio Rodrigues que enviara cartas à Portugal, terra dos dois sacerdotes, e depois um narrador em terceira pessoa dá prosseguimento aos relatos da vida de Rodrigues.

O ser humano é estranho. Em algum lugar do coração, ele tem sempre o sentimento de que triunfará, não importando quais perigos enfrente. É tal qual nos dias de chuva em que acreditamos enxergar débeis raios de sol numa colina distante. (p. 68)

A fé somente se torna inabalável quando ela é abalada, e daí se sabe se a fé que possuímos era autêntica – fincada em raízes profundas – ou se ela é apenas o resultado de ações exteriores que de nada adiantam para nutrir a fé que nunca morrerá nem vacilará, mesmo nos momentos mais difíceis. E é ao ler a história de um Japão hostil ao cristianismo que o leitor cristão se pega a pensar o que eles fariam em tal situação. Fugiria? Apostataria? Amaldiçoaria o nome de Cristo Jesus, assim como a mulher de Jó o aconselhou? Ou ficaríamos como Jó, que mesmo com todas as dificuldades e sofrimentos, não O negou? O silêncio de Deus é algo que nos incomoda, e incomoda o padre Rodrigues. Muitas vezes lemos sua indagação ao Pai Criador do porquê Ele continuar em silêncio, mesmo quando os seus filhos sofriam terrível perseguição e morriam uma morte extremamente dolorosa. O padre Rodrigues tem fé, mas também é humano. E como todo ser humano, ele não entende como Deus pode se calar em situações injustas. Mas Deus é Absoluto, e mesmo não entendendo o que está acontecendo, Ele sabe de todas as coisas. Mas a situação de Rodrigues era outra, e por muitas vezes pensa em dar fim de uma vez por todas com o sofrimento daqueles pobres que eram explorados pelas autoridades japonesas. Eram pobres e eram escravos, mas suas almas eram livres. E assim, muitos se reuniam secretamente para os sacramentos, confissão dos pecados, batismo.

Mas Cristo não morreu pelos bons e belos. É bastante fácil morrer pelos bons e belos; o difícil é morrer pelos desgraçados e corruptos – eis do que me dei intensamente conta naquele momento. (p. 72)

O cristianismo não fincava as raízes no japão de 1638. Os missionários encontravam grandes dificuldades para espalhar as Boas Novas naquele país. Mas houve um tempo em que o cristianismo era bem-vindo, e muitos tinham sido cristãos – ao menos 300 mil. Mas o que levara, mais adiante, o cristianismo ser considerado como o inimigo do Japão? Talvez porque o cristianismo ameaçava o budismo, religião dos japoneses. Talvez por ressentimento. Silêncio é um romance denso, angustiante e metafísico. Ao lermos, não apenas sabemos como era o Japão há tantos séculos atrás, mas também nos vemos envolvidos com a aflição de cristãos que estavam provando o silêncio de Deus. Ele estava em silêncio, mas a cada parágrafo que lemos, Ele está lá. Aqueles que morreram no suplício do poço certamente não morreram por um deus estranho. Ficamos decepcionados – é essa a palavra certa? – com o desfecho de Rodrigues. Nos apegamos a essa personagem que tão nos é familiar, mesmo com séculos nos distanciando. O silêncio que o padre clamava para ser interrompido, é o mesmo silêncio pelo qual passamos. Queremos ouvir a sua Voz, mas em resposta há apenas silêncio. Mas isso não quer dizer que Ele não exista, ou que não está conosco. Ás vezes o silêncio também é uma resposta, mas é impossível imaginar como nos comportaríamos em tal situação.

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