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As pupilas do senhor Reitor, de Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor [Record, 368 pgs, R$32,90] é um clássico da literatura portuguesa. Como o título sugere, as personagens principais são as pupilas do S. Reitor. Margarida e Clara são irmãs, mas uma é o oposto da outra. Enquanto a mais velha, Guida, é reservada e dada às tristezas e melancolia da vida, a outra é alegre, brincalhona e de uma ingenuidade própria das raparigas (leia-se moças) de virtudes do século XIX. A trama gira em torno do já citado S. Reitor, as suas pupilas, o José das Dornas e seus filhos, Pedro e Daniel. Este último, que deveria ter sido padre, não fosse por sua paixão pela pequena Guida – os dois eram crianças – é o caos que agita toda a história. Mandado para a cidade do Porto, Daniel volta já médico para a aldeia onde nascera e passara a infância e causa agitação na pacata aldeia. Suas ideias modernas chocam o médico octogenário, João Semana, e a princípio há certa disputa entre o velho e conservador; o novo e o progressista. Pedro, irmão mais velho …

Em águas sombrias, de Paula Hawkins


Em águas sombrias é um Thriller bom. A narrativa se concentra na morte de Nel Abbott, uma mulher ‘encrenqueira’ que estava disposta a contar a história do Poço dos Afogamentos, e sobre as mulheres que foram atraídas pelas águas sombrias do rio. Atraídas e mortas. O tema morte e suicídio ganha ares sobrenaturais, com vozes sendo ouvidas pelas personagens e algo demoníaco envolvendo todas essas mortes. Agora Nel estava morta e deixara para trás muitas dúvidas e nenhuma resposta. Sua irmã Jules se vê de volta a um passado dolorido, e que culpava Nel por tudo o que lhe acontecera. Agora teria que lidar com Lena, pois ela era a sua única família. Lena a princípio insinua que a mãe tinha se suicidado, o que de certa forma ela acredita. Jules, não. Mas a cidade do interior da Inglaterra, Beckeford, é cheia de mistérios e todas as personagens vivem uma vida conturbada, cheia de mistérios a serem revelados.

São três as mulheres que supostamente se renderam ao chamado das águas: Lauren, Katie e Lena. A primeira, mulher de Patrick Townsend e mãe de Sean Townsend. A história que todos conheciam era de que ela traía o marido e que depois de não poder ver mais o amante, se jogara no Poço. Já a segunda, uma adolescente linda e aparentemente normal, havia dado fim à própria vida sem motivo algum. Um mistério, assim como a morte da terceira mulher, Nel. Todas essas mortes teriam algum vínculo? Será que as três se sentiam atraídas pelo rio da mesma maneira? Ou não quiseram se entregar às águas, e foram forçadas? São essas as indagações que permeia os primeiros capítulos, até as pontas começarem a se ligar umas às outras. Cada personagem sabe de alguma informação, ou pensa que sabe, e assim o mistério vai ganhando forma. Assassinatos? Algo sobrenatural? Vingança? Suicídio? As respostas começam a aparecer para o leitor depois da metade do livro, mas aqueles mais atentos já começam a desconfiar de algo, acertadamente, e de alguém bem antes da autora começar a desvendar para os leitores todo o mistério. A resposta final, em certa medida, é confirmada. O leitor sagaz já sabia, até que há uma reviravolta e fim. A história acaba. Um pouco decepcionante como se dá o desfecho, algo totalmente fraco e, diria, entediante.

Temas bastante complexos são abordados por Hawkins, tais como estupro e suicídio. São bastante pertinentes e acho interessante trazer essa discussão, mesmo que sutil, para a narrativa. Mas há um pouco de ideologia, que ao leitor menos atento passa desapercebido, ao abordar tais assuntos. Sempre algo como colocando toda a culpa nos homens, nas repetidas vezes que a palavra sexismo é dita. Deixa aquela impressão de que nenhum homem respeita as mulheres, de que há sempre um clubinho que despreza as mulheres, de que elas são desacreditadas em seu meio profissional apenas por serem mulheres. É claro que isso ocorre, mas as personagens masculinas, todas elas, tem esse traço machista. Não gosto de ver as coisas sob esse ponto de vista, pois tende a ser nós contra eles. Talvez Josh, um garoto de 12 anos, seja o único que ainda não carregue esses traços, pois ele ainda é uma criança. Isto foi algo que me deixou um pouco incomodado, como um homem, pois no universo de Beckford não há uma única figura masculina que não seja caricaturada dessa maneira. Mas é um bom livro - apesar  de um pouco confuso com várias vozes se alternando - para se entreter nas horas ociosas do dia. Como a narrativa segue de uma maneira bem cinematográfica, assim dizendo, não me surpreendeu a informação de que os direitos de adaptação cinematográfica já foram adquiridos pela DreamWorks Pictures.

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